A vida em Amesterdao



Nao o retalho da vida de um medico, mas o retalho da vida de uma portuguesa na terra dos diques, bicicletas, tulipas, moinhos, queijo... e sim, das drogas e do Red Light District tambem.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Vida em Amesterdao (VeA)

Vida em Amesterdão (VeA) vai ser uma rubrica periódica sobre as minha experiencias pessoais em Amesterdão… agora que já ultrapassei a barreira dos 4 anos de estadia, sinto que pouco me choca, pouco me surpreende, pouco me faz bulir o sangue nas veias.

Ao principio… bem, ao principio era todos os dias uma aventura, uma experiencia, uma historia para contar. Vou tentar de vez em quando recuperar uma pérola do armário ou simplesmente expor alguns factos sobre como é viver aqui ou coisas que vi que achei interessantes, diferentes ou dignas de nota… começo pelo meu primeiro dia de trabalho, 3 dias depois de me ter mudado para Amesterdão…

Começo com o início do dia (começa-se pelo principio, certo?!) … cheguei a recepção, disse que começava a trabalhar naquele dia no departamento xpto e que o meu manager era o XX. A recepcionista pegou no telefone, trocou umas frases ininteligíveis, sorriu e disse-me: o XX não está no escritório hoje. Eu não desarmei e pedi para então falar com o XY, o chefe de XX e que eu também conhecia. Repetição da conversa anterior e do resultado… pois… o XY também não estava.

E eu fiquei ali, com um sorriso parvo, a olhar para ela como quem diz… pois sim, e agora o que faço? Não conheço ninguém, não sei para onde ir, não tenho soluções, estou aqui as 8h como me mandaram e mais não sei… ai cacete, treinei tanta segurança e autoconfiança e nem consigo passar a recepção!!!

A recepcionista, entretanto, cagou altamente em mim e continuou a fazer nem sei o que, estava demasiado concentrada no meu dilema….

Acabei por falar com uma pessoa dos RH (expatriada como eu e com quem apenas tinha trocado 2 emails), que me veio buscar, me deu a entender que os holandeses eram todos maluquinhos e que o facto de ninguém estar ali a minha espera não me devia preocupar e muito menos ser algo para tomar como uma questão pessoal…

Após tão auspicioso inicio, lá fui acompanhada ao meu futuro departamento e futuros colegas (que eu já conhecia de 2 ou 3 assuntos comuns anteriores). Não houve beijocas para ninguém, toma lá um bacalhau e já vais aviada, bem-vinda e tal, e 5 minutos depois estava tudo a trabalhar, entretidos com os seus assuntos e afazeres. Eu sentei-me atrás do pc, com um dossier com o Company Handbook e a password de acesso ao sistema. Sem mais indicações ou conversa. Nesta altura já só pensava: ai a minha rica vidinha, o que é que eu vim fazer para aqui, estava tão “sogadinha” em Lisboa. Assim fiquei durante uma horinha, sem mais uma frase trocada entre as pessoas do departamento. Nesta altura já só pensava: MEDO!!!


Passado um bocado, um colega veio ter comigo e perguntou-me se eu conhecia o edifício e se sabia onde as coisas básicas ficavam. Perante o meu ar apardalado, deve ter tido pena e levou-me a passear. Em 15 minutos tinha sido apresentada a cerca de 70 pessoas diferentes, todas com nomes impossíveis de perceber, bacalhaus a esquerda e direita e depois de muitas curvas, escadas, corredores e gabinetes voltamos ao ponto de partida com indicação da localização mais próxima de máquina de café (prioridade máxima), wc e cantina. Eram 11h e já estava exausta. Eu não sou propriamente medricas, mas os meus nervos já estavam por um fio… o meu colega foi impecável e estivemos um bocadinho a conversa sobre a mudança, primeiros dias e tal. Porreiro. Comecei a descontrair.

As 12h em ponto, toda a gente se levanta e sai do gabinete. Não fiz perguntas e esperei. 10 segundos depois, o mesmo colega que me tinha levado a passear volta atrás e pergunta-me: Queres vir? Vamos a cantina almoçar! (esta rotina das 12h em ponto mantém-se 4 anos depois). Saltei da cadeira e embora não tivesse fome nenhuma (comer as 12h?!?! wff?!) disse que sim! De tabuleiro em punho me apercebo que comida quente = 0! Sopa = caldo knorr com umas coisas a boiar. Salada = 0. Havia umas fatias de pão cortado e uns pacotes individuais com queijo ou fiambre ou algo semelhante. E uns pacotinhos de manteiga. E umas caixinhas com chocolate em pepitas e açúcar colorido. Também havia uns croquetes com aspecto estranho... decidi não arriscar e tirei 2 pecas de fruta e 1 iogurte. Chegada a caixa, entrego o meu cartão mb português (que funcionava perfeitamente nos caixa automática). A senhora da caixa olha para mim e diz-me em holandês: @##@%^%**(*(_)(__*&$%#@#__+ (na minha cabeça eu só gritava: - Mas que raio é que tu queres pá?!?! O que se passa?!? Opto por entregar uma nota de 5 euros e a senhora volta a repetir algo impossível de perceber, mas já com muito menos paciência. Entretanto estava a formar-se uma valente fila atrás de mim e eu só quero bazar dali… O meu colega salvador aproxima-se e pergunta: -Tu não tens chipnip? A minha cara deve ter sido toda a resposta que precisava e entregou o cartão dele para pagar o meu almoço. Ainda estava a formular o agradecimento quando ele sorridente me diz: Não faz mal, aqui só se pode pagar com o chip (tipo porta-moedas multibanco, lembram-se?!) E de imediato acrescenta: podes pagar-me quando voltarmos para cima. Toma lá que é para não pensares que aqui se come fiado… a minha despesa tinha sido cerca de 2 euros!

Depois de um almoço complicado, em que a curiosidade de 20 pessoas se centrou em mim, fiquei extremamente grata pelo silêncio tumular do departamento. As 17h já tinha lido tudo o que havia disponível para ler e fui para casa enfiar-me nas saias da mama (que tinha ido ajudar na mudança) a pensar que tinha cometido um grande erro. Não lhe disse nada, claro…

4 comentários:

Anónimo disse...

Mas não me enganaste totalmente. Vinhas demasiado pálida e pouco faladora. Só descontraiste ao jantar. Bjs

Andorinha disse...

O meu foi muito mais fácil, confesso. Meteram-me num "curso de introdução à IBM" de 3 dias. Depois de 8 anos de casa achei aquilo uma valente estupidez. Tanto é que ao fim do primeiro dia, assim q me deram um PC e um carro pras mãos, disse ao chefe: olha, tenho mesmo q ir aprender a trabalhar com o notes? É que.. é ridículo perder tempo aqui.
Mas agora que leio a tua descrição...abençoados 3 diazinhos! E a minha colega Arzu, a turca, que é uma querida e me explicou tudo. 4 anos....

SZ disse...

no meu primeiro emprego, no departamento de urbanismo em amsterdam, tambem ninguem estava a minha espera... e o meu supervisor tres semanas de ferias.... fiquei tres semanas sem nada para fazer porque ninguem tinha ideia do que eu para ali vinha fazer... felizmente so fui funcionaria publica ano e meio... o suficiente para dizer... nunca mais!
jinhos.sonia

Tuxa disse...

Mummy,
Acho nunca se consegue enganar por completo, mas foi o suficiente para evitar perguntas para as quais nao tinha resposta. E a verdade é que tudo se compos...

Andorinha,
Cheia de sorte, é o que te digo, lol!

SZ
Entao viveste na pele o desamparo! Bjs