Aqui há umas semanas escrevi sobre este assunto...
Nestas férias consegui obter cópias de todos os textos que o meu irmao escreveu/publicou na faculdade, incluíndo o que escreveu a propósito do "Levantado do Chao".
(
Os meus pais tinham cópias guardadas, parecia que adivinhando que um dia alguém perguntaria por elas. Quantos mais tesouros estarao guardados nas gavetas e armários daquela casa?!)“Levantado do Chão”
Saramago. Nunca li. E ele escreveu sobre o imenso.
E depois sobre o Alentejo. Li, e tornei a faze-lo, inebriado.
São paginas enormes, um infindável mar em cada uma, de gente, conflitos, dores e a submissão a terra, ao trabalho e ao latifúndio, vergando as costas de sol a sol, morrendo, passando fome. E voltar a página e ver tudo isso outra vez. E há-as lavadas em lágrimas, outras manchadas de sangue, fresco, penadas de vida, e descobrir na contemplação mágica das palavras, umas após as outras, freneticamente, a vida do Joao Mau-Tempo, lavrador e dos outros lavradores e do latifúndio. E no meio da história, outras, pequenas, de um cão morto, do pai e do filho forcados a defrontarem-se em luta, do homem enforcado e de outros, espancados até a morte.
Joao Mau-Tempo nasceu e morreu de Alentejo, mourejou desde petiz, afincadamente, fornicou e casou com Faustina, tiveram filhos, passaram fome e outras misérias, labutaram e lutaram contra os latifundiários, e foram sempre perdendo, acoitados pelo regime e pela PIDE. Conheci-os a noite, deitado na cama, e de dia, nos transportes públicos.
É um livro cru, as arestas rudes (poli-las porque?), os homens iletrados quadrados estúpidos, intensamente vivos de simplicidade. Da primeira a última página nem uma palavra a mais ou a menos, sangueterraIgrejapolíticafomemuitafomemalditoSalazarepide e as espigas de trigo, ceifadas ainda com vida, dos campos do Alentejo.
Acerca do título disse o autor: “
Do chão sabemos que se levantam as searas e as árvores, levantam-se os animais que correm os campos ou voam por cima deles, levantam-se os homens e as suas esperanças. Também do chão pode levantar-se um livro, como uma flor brava ou uma ave. Ou uma bandeira. Enfim cá estou eu outra vez a sonhar. Como os homens a quem me dirijo.”
Estou com vontade de pegar novamente no livro...